Revista Jurídica em Evidência

Perfil

Entre a toga, a gestão e o compromisso com a advocacia de Matheus Ayres Torres

Uma trajetória construída entre a advocacia, a atuação institucional e a gestão responsável, com foco na assistência e nas necessidades da categoria

Matheus Ayres Torres
Acervo pessoal

A carreira de Matheus Ayres Torres é marcada pela combinação entre experiência jurídica, participação institucional e uma visão de gestão voltada às necessidades concretas da advocacia. Natural de Passo Fundo e criado em Soledade, construiu sua relação com a Ordem a partir da jovem advocacia e, ao longo dos anos, passou por diferentes funções até chegar à tesouraria da CAARS. Reconduzido ao cargo para o triênio 2025/2027, acompanha uma estrutura que ampliou serviços, investimentos e atendimento aos profissionais em todo o Rio Grande do Sul. Da administração dos planos de saúde ao convênio com o IPE Saúde, passando pelo apoio às subseções e pela atuação durante a enchente de 2024, sua trajetória institucional revela uma compreensão particular sobre o papel da gestão: transformar recursos em assistência, estrutura e respostas efetivas para quem exerce a advocacia

Matheus Ayres Torres assumiu a tesouraria da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio Grande do Sul (CAARS) quando a entidade se preparava para administrar seus planos de saúde com equipe própria. Implantada em fevereiro de 2022, a mudança criou uma operação que atende advogados e familiares e gera receitas para a assistência à categoria. O número de beneficiários passou de cerca de oito mil para mais de 16 mil no balanço de agosto de 2026. Para Matheus, a expansão tem uma consequência que alcança também os colegas que utilizam outros serviços da Caixa: os recursos obtidos com a administração dos planos ajudam a financiar o investimento em saúde, esporte e lazer, além de equipamentos e serviços para o sistema OAB/RS e CAARS em todo o estado. Como diretor-tesoureiro, trabalha nessa relação entre a receita dos serviços e a capacidade de ampliar o atendimento à advocacia.

Ao chegar à diretoria, Matheus precisou se dedicar ao estudo desse setor, apoiado por consultorias e pelos profissionais da CAARS. A administração própria dos planos havia sido preparada na gestão anterior, e sua implantação ocorreu no início do mandato em que trabalhou com o então presidente Pedro Alfonsin. O atendimento aos beneficiários passou a ser feito por uma equipe da Caixa, com ferramentas de atendimento virtual e presencial no que diz respeito a mensalidades, contratos e informações. Ao explicar a expansão, Matheus reconhece o trabalho dos funcionários e a interlocução com as operadoras parceiras. Reconduzido à tesouraria para o triênio 2025/2027, na diretoria presidida por Neusa Bastos, ele acompanha hoje uma operação que cresceu e passou a receber novas demandas. Entre elas, a expansão do serviço para os escritórios de advocacia e a administração do convênio com o IPE Saúde.

A experiência na administração dos planos permitiu à Caixa assumir também o atendimento dos advogados interessados no IPE Saúde. Matheus participou do trabalho para viabilizar essa operação, que envolveu levantar o interesse dos profissionais e de suas famílias, organizar informações por idade e discutir cálculos atuariais. Esses estudos ajudaram a dimensionar o grupo de possíveis beneficiários e a negociar os valores. Matheus afirma que foram superados entraves jurídicos e legislativos por meio do diálogo, de muito trabalho técnico e da compreensão por parte dos dirigentes do IPE e do governo do Estado, culminando em uma entrega histórica. O convênio foi formalizado em dezembro de 2025 e começou a receber beneficiários em 2026. Para Matheus, sua implantação está entre os resultados dos quais se orgulha na Caixa, tanto pela possibilidade de oferecer outra opção à categoria quanto pelo trabalho necessário para colocar o serviço em funcionamento.

Na operação do IPE Saúde, a Caixa arrecada as mensalidades e faz os repasses ao instituto, acompanha as inclusões e exclusões de beneficiários e mantém a equipe de suporte à advocacia. É a execução de uma demanda que passou por diferentes gestões da OAB/RS e da CAARS. Antes da pandemia, um levantamento da Ordem já havia identificado mais de 30 mil advogados e familiares interessados; a abrangência do atendimento no interior estava entre os motivos apontados. O acordo permite a adesão dos profissionais e a inclusão de dependentes, conforme as regras do plano, com acesso à rede do instituto no estado.

Nas decisões de investimento, ele relaciona as condições financeiras da Caixa à possibilidade de custear benefícios para os colegas. Foi o caso da campanha contra a gripe de 2026, quando as diretorias da CAARS e da OAB/RS decidiram oferecer doses gratuitas aos advogados e estagiários regularmente inscritos e adimplentes, dentro do estoque destinado à iniciativa. A parceria com a Panvel permitiu utilizar as clínicas da rede para as aplicações; nas cidades sem essa estrutura, a vacinação foi organizada pelas subseções. Ao explicar a decisão, Matheus informou que mais de dez mil advogados receberam a vacina gratuitamente. O novo formato permitiu procurar uma unidade da rede sem depender exclusivamente de uma data de vacinação na subseção. A ação integrou a programação dos 80 anos da Caixa e associou o custeio da imunização à distribuição do atendimento por diferentes regiões.

A relação de Matheus com o interior começou muito antes do trabalho institucional. Nasceu em Passo Fundo, cresceu em Soledade e formou-se em Direito na Ulbra, em Canoas. Na universidade, conviveu com estudantes de várias cidades gaúchas e construiu relações que ampliariam seu contato com a advocacia do estado. Fez pós-graduação em Direito Civil e Processo Civil no IDC e especializou-se em Direito de Família e Mediação na Fadergs. Essa formação também esteve presente em sua atuação no Instituto Brasileiro de Direito de Família, onde coordenou a Comissão de Estudos Constitucionais da Família no Rio Grande do Sul. Seu trabalho na Ordem começou na jovem advocacia, com participação na interiorização da comissão, antes de assumir sua presidência.

Matheus presidiu a Comissão do Jovem Advogado no período em que foram instaladas mais de 60 comissões nas subseções, entre 2013 e 2015. O trabalho ampliou a organização regional dos profissionais em início de carreira e criou interlocutores para suas demandas em diferentes municípios. Ele defendia conhecer a realidade dos jovens advogados em cada região e incentivar sua participação ativa na entidade. A instalação das comissões dava aos iniciantes a possibilidade de integrar o trabalho da Ordem em sua localidade e de levar suas necessidades à representação estadual. A experiência lhe proporcionou contato com colegas que começavam a exercer a profissão em contextos distintos dos encontrados na capital. Esse trabalho com a participação regional antecedeu sua atuação na CAARS, onde as solicitações de assistência e de estrutura profissional também chegam por meio das subseções. Matheus reafirma o orgulho pelo fato de que muitos dos jovens envolvidos com a comissão em seu período como presidente hoje ocupam cargos de destaque nas subseções e no conselho seccional da OAB/RS.

Na presidência da Comissão de Educação Jurídica, exercida no triênio 2019/2021, Matheus, em atuação com seus pares, trabalhou com uma avaliação minuciosa dos cursos de Direito já existentes e daqueles que as faculdades pretendiam implementar. Inovou na comissão ao estabelecer que os pareceres acerca dos cursos tivessem um membro relator e um revisor, a fim de analisar a autorização de novas graduações e examinar a qualidade das instituições em funcionamento. A comissão verifica as condições de ensino nas universidades gaúchas, priorizando a qualidade da formação de quem ingressa na advocacia.

O conhecimento das subseções também faz parte de seu trabalho na distribuição de recursos da Caixa. Matheus participa, em conjunto com a diretoria da CAARS e da OAB/RS, da análise das solicitações de equipamentos e de melhorias apresentadas pelas representações locais. Os pedidos visam à melhoria da qualidade do trabalho do advogado nas subseções e salas da OAB/RS espalhadas pelo estado, incluindo desde notebooks, computadores e scanners até ar-condicionado e equipamentos para a subseção receber o advogado que utiliza o sistema OAB. As demandas são encaminhadas por quem conhece as condições de atendimento em cada município e são examinadas com os respectivos orçamentos. Matheus destaca que os advogados de qualquer cidade ou estado podem ir até uma sala ou subseção do sistema OAB e utilizá-la com todo o conforto.

A enchente de 2024 exigiu de Matheus uma atuação direta nos pedidos de auxílio de colegas que haviam perdido bens e condições de trabalho. Ele participou da análise das solicitações junto à diretoria da Caixa e recorda contatos feitos até de madrugada durante aqueles dias. Havia profissionais sem dinheiro para despesas imediatas, alguns com a casa e o escritório atingidos no mesmo endereço. Em conjunto com a OAB/RS, a CAARS instituiu um auxílio extraordinário de mil reais, pago em parcela única aos inscritos que cumprissem os requisitos da medida. O benefício se destinava a pessoas em necessidade econômica, com danos de grande monta causados pela inundação, e podia ser acumulado com outros auxílios. A diretoria também contou com o apoio do Conselho Federal da OAB para atender os profissionais atingidos. Matheus descreve esse período como uma experiência que ainda o emociona, pela situação de calamidade dos colegas que procuravam a entidade.

Ao mesmo tempo, Matheus acompanhou a drenagem da estrutura subterrânea do Trend City Center, onde a Caixa mantém uma unidade de atendimento em Porto Alegre. A água acumulada nos quatro andares de garagem interrompeu por mais de 90 dias o funcionamento do local. O trabalho permitiu reabrir os espaços de uso compartilhado e os consultórios de psicologia e fisioterapia, com retomada anunciada para agosto de 2024. Matheus acompanhou a recuperação da unidade enquanto a entidade respondia às perdas sofridas pela própria advocacia. Conhece também como usuário o espaço de trabalho do Trend: utiliza o coworking, que oferece salas de reuniões e estrutura para o atendimento profissional.

Quanto à prestação de contas na tesouraria da Caixa, sob sua responsabilidade, Matheus lembra que ela passa por auditoria externa e pelas instâncias de fiscalização da Ordem. Em maio de 2026, o Conselho Pleno aprovou com votos de louvor as contas da CAARS referentes a 2025. As do ano anterior também receberam aprovação, após o período em que a entidade precisou manter seus compromissos e atender às consequências da enchente.

Matheus fala com humor da passagem de conselheiro seccional a tesoureiro. Lembra que era “muito chato” ao examinar as contas dos integrantes das diretorias anteriores da seccional e das subseções, e informa que acabou assumindo a função que tanto fiscalizava. Hoje, é ele quem recebe os questionamentos sobre o uso dos recursos. Considera essa cobrança necessária e defende que os colegas peçam explicações sobre a gestão da Caixa. A responsabilidade de administrar passou a ser sua; a exigência com que acompanhava as decisões dos outros é a mesma que considera legítimo dirigirem a ele.

Na vida pessoal, é esposo de Monique e pai do João, de oito anos, e faz de tudo para estar ao lado da família. Matheus ainda pratica musculação, joga futebol e, sempre que sobra um tempo, “foge” para Torres para aproveitar algumas ondas. O Internacional também faz parte da vida de Matheus: ele integra o Conselho Deliberativo do clube, mantendo seu envolvimento com outros colorados ao lado das atividades na advocacia e na CAARS.

Já na vida profissional, com forte atuação no direito de família, sucessões e imobiliário, acredita piamente que a advocacia deve fazer o possível para evitar o colapso do Poder Judiciário em razão do grande número de processos. Matheus afirma: “O dever do advogado é evitar ao máximo que a vida das pessoas, e em especial a das crianças, seja decidida por um terceiro, no caso, um juiz. Acredito no bom senso das pessoas e faço de tudo para que evitem o processo judicial.”

Texto publicado a partir de Jurídica em Evidência, edição 004.