Certo dia, numa cidade protegida por montanhas milenares e cercada por um rio que parecia murmurar antigas histórias, o povo acordou com um dilema: escolher um novo juiz.
Inscreveram-se três candidatos de notáveis currículos. O primeiro era chamado de Justo, pois julgava com equidade e flexibilidade. Suas decisões pesavam cada caso com precisão, dando a cada um o que é seu, segundo critérios de equidade e moralidade, buscando proporcionar condições iguais aos menos favorecidos, a fim de corrigir desigualdades sociais e materiais.
O segundo juiz era chamado de Bom, pois julgava com bondade. Onde havia dureza, ele semeava misericórdia. Onde havia erro, ele oferecia uma segunda chance. Seus julgamentos buscavam o maior bem para o maior número de pessoas, reconhecendo a felicidade como um direito inalienável de cada ser humano.
O terceiro juiz era chamado de Certo. Ele não prometia conforto imediato. Estudava as leis como quem observa as estrelas: não para mudá-las, mas para compreendê-las e segui-las, colocando-se também abaixo delas. Seus julgamentos não criavam o Direito, mas o interpretavam com espírito científico, buscando sempre harmonia e coerência.
E foi assim que, quando o antigo juiz da cidade partiu, as pessoas reuniram-se na praça, em frente ao tribunal, trazendo suas vozes para o crucial debate.
Uma jovem estudante disse: — Precisamos do Justo, pois ninguém melhor do que ele para equilibrar interesses e combater desigualdades.
— Não — respondeu um padeiro. — Precisamos do Bom. Pois o mundo já é duro demais. Então, que o juiz seja capaz de nos dar alento e esperança.
Um ancião, de olhos calmos, perguntou: — E quem nos protegerá de nós mesmos?
O debate cresceu como o vento antes da tempestade. Um empresário subiu o tom, dizendo: — E se o Justo tratar a justiça como um negócio? Ora, o que é justo para um pode ser injusto para outro.
— E o Bom pode se iludir com a falsidade, confundir bondade com fraqueza e tolerar o que deveria corrigir — completou um artesão.
Depois, um médico, embora tímido, interveio: — Se cada decisão depender do coração ou da vontade do juiz, então não teremos Direito, mas arbítrio.
O silêncio caiu sobre a praça... Até que o ancião voltou a falar: — A justiça humana é como a sombra ao entardecer: alonga-se e se distorce conforme a luz que a projeta. A nossa bondade é como a água: toma a forma do recipiente que a contém. Mas o que é certo... ah... o que é certo permanece, mesmo quando ninguém observa.
— E o que é o certo? — perguntou uma costureira.
Imediatamente, uma professora respondeu: — É aquilo que não nasce do desejo, mas do conhecimento. Não do sentimento, mas do estudo. Não da vontade individual, mas da lei.
Um humilde operário, que apenas ouvia, resolveu se pronunciar: — O juiz, assim como eu, deve também se sujeitar à lei e não ser maior do que ela.
— Nem menor — concluiu o ancião. — Deve ser seu fiel intérprete. Pois julgar não é um ato individual, mas a expressão de escolhas postas nas leis, cujas imperfeições devem ser corrigidas pelo conhecimento e não pela mera vontade, que facilmente se degenera em capricho.
O povo, nesse instante, compreendeu que o Justo e o Bom poderiam criar incertezas, ao julgar segundo suas vontades e sentimentos. Mas o Certo — ainda que frio aos olhos de alguns — traria segurança aos julgamentos, que seriam expressão de um profundo e incessante estudo do Direito.
Na manhã seguinte, o ancião chamou os três juízes até a praça. O Justo caminhou sereno. O Bom veio com olhar compassivo. O Certo trazia livros. E um representante do povo disse: — Não buscamos o juiz que julga por seus valores ou por sua bondade, mas aquele que julga conforme aquilo que é maior que todos nós, fazendo valer nossas próprias escolhas, postas na Constituição e nas leis do nosso povo.
Então, entre o Justo, o Bom e o Certo, o povo escolheu este último. E assim, naquela cidade, cercada por montanhas milenares, não se prometeu felicidade nas decisões, nem conforto imediato — mas se garantiu algo mais valioso: a segurança de que, em cada julgamento, não falaria o homem, mas o Direito.
E o rio continuou a correr, murmurando mais esta história.
